quarta-feira, abril 25, 2007

25 de Abril

25 de Abril hoje … sempre !
Tenho evitado escrever sobre este tema, talvez por ser difícil, muito susceptível de más interpretações, de confusões, de polémicas semi-absurdas … e principalmente por recear não me conseguir expressar devidamente …
A escrita é uma arte permanentemente incompleta, bastante imperfeita e por vezes pouco mais que fútil.
Seria mais aconselhável ficar calado, refugiar-me no aconchego de um bom livro, que ando a ler, mas … como sempre fui fã do inesperado e não me assusta correr riscos, aí vou …
O 25 de Abril desperta em mim uma multiplicidade de sensações, porventura contraditórias.
Enche-me de alegria, polvilhada de tristeza, com pitadas de angústia e sementes de saudade.
Alegria porque sou dos muitos milhões de filhos de Abril, já que apesar de ter nascido antes, a minha adolescência foi temperada e formatada, por esses tempos de loucura em que a liberdade saiu à rua e tudo era discutível, alterável e experimental.
Esses tempos foram realmente incríveis, riquíssimos de experiências e vividos com uma “pedalada” tal, que evidentemente seria impossível de manter.
Libertou-se um país de uma existência tacanha, de um isolacionismo egoísta e estúpido, de um caciquismo ancestral, castrador e profundamente estéril e fútil. Acabou-se uma guerra sem nexo, absurda e interminável.
No entanto tão depressa o balão encheu, como começou a esvaziar logo de seguida …
O choque da revolução, atingiu apenas ao de leve as mentalidades … a falta de cultura e baixa instrução não eram revertíveis, de um dia para o outro … as origens marcavam muito forte e as tradições ancestrais, medievais e obscurantistas, não foram eliminadas, por um simples passo de mágica … e continuavam lá, ainda que temporariamente adormecidas …
Como não era consistente e não assentava em bases suficientemente sólidas, a revolução dos cravos começou a enterrar-se lenta e irremediavelmente no pantâno nacional … nove séculos de história não mudam assim tão de repente, só porque um ditador caiu da cadeira e o “Zé” deu um murro na mesa !!!
Pouco a pouco o entusiasmo foi esmorecendo, o fervor foi decaindo e lentamente a vida da Nação foi voltando ao fado, ao futebol e a Fátima ….
O povo deixou de estar unido e facilmente foi vencido ! Vencido até por dentro, antes de o ser por fora . Vencido pelo individualismo, pelo egoísmo, pela inveja, pela cunha, pela corrupçãozita, pelo esquema.
Faltou a educação, faltou a cultura, faltou a associação, faltou o grupo.
Hoje o 25 de Abril, pouco mais é do que um feriado. É fixe porque não vamos trabalhar.
Tão fixe como o 5 de Outubro, o 10 de Junho, o 1º de Novembro . São feriados mas a grande maioria nem sabe do quê.
Para alguns é também altura de nostalgia. Lá voltam, por um dia só as cantigas revolucionárias, as imagens de tanques com flores nos canos, os barbudos que se abraçam de punho no ar, aos murros na atmosfera … pode até um arrepio breve sacudir algumas espinhas, ou uma lágrima passageira balancear ao canto olho … É tudo ! Amanhã é outro dia … a vida irá continuar, bem real e sem utopias …
Para o ano, voltaremos de novo a tirar os discos da gaveta, compraremos de novo o cravo vermelho na florista da esquina … e recordaremos velhos rituais, limpando por um dia as teias de aranha, que enchem os ícones de passado.
25 Sempre !!!

1 Comments:

Blogger JC said...

Passadas duas semanas sobre este mesmo artigo a ausência de qualquer comentário mostra bem a indiferença que rodeia esta data da nossa História.
O 25 de Abril já não aquece, nem arrefece !
Já não desperta emoções, nem sequer justifica 1 ou 2 minutos, para se dizer umas palavras.
E agora tenho que desligar, está a começar mais um episódio da Bela e o Mestre.

8/5/07 11:49  

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