sábado, janeiro 07, 2006

A Geração Playstation

Todos nós sabemos como é difícil hoje em dia ter filhos. A dura situação económica do país, o emprego e a carreira das mulheres, os pequenos apartamentos em que vivemos, os casamentos e a “vida a dois” a começar cada vez mais tarde, a falta de tempo, são alguns dos principais motivos, que levam a que as famílias sejam cada vez mais pequenas.
Alguns casais optam até por não ter filhos, utilizando as poupanças económicas (quando as há) em viagens, ou bens materiais, situação impensável há algumas gerações atrás, pois tal significaria que a mulher era improdutiva, uma espécie de meia-mulher, sendo até motivo de separação e de uma certa exclusão social.
Outros casais, a larga maioria, opta por ter apenas um filho, deixando para um futuro, que nunca mais chegará, a vaga promessa de “mandar vir” outro. São os filhos únicos, verdadeiros príncipes herdeiros, em todas as acepções do termo, que cedo se apercebem da sua condição “real”, começando a se comportar como tal, muitas vezes antes ainda de começarem a andar ou a falar. Sendo os únicos, eles são o foco de todas as atenções dos pais, adorados e apaparicados pelos avós e restante família, inundados de brinquedos e ofertas.
Antigamente quando as famílias eram grandes e tinham muitos filhos, cada novo “inquilino” que chegava, era certamente festejado (os filhos eram considerados a riqueza da família), mas não lhe era dado nenhum papel exagerado, ficando muitas vezes debaixo da “tutela” de algum irmão, ou irmã mais velha, que o começava logo a educar, sem mariquices, nem mordomias. Além disso, começava logo desde cedo a brincar com os irmãos, habituando-se desde o principio a uma saudável convivência social, submetida a regras e hierarquias, mais ou menos justas.
Agora não, os novos reizinhos, são verdadeiramente quem manda lá em casa. E se o seu poder é contestado, os choros estridentes e as birras teimosas, são formas de pressão extremamente eficazes. E depois, se mesmo assim os pais conseguem sustentar a negativa, há ainda a possibilidade de recorrerem aos avós, que já gastaram todo a sua severidade, no seu tempo próprio e agora estão plenamente dispostos a satisfazerem todos os desejos, dos seus netinhos.
Por outro lado os pais, sobrecarregados com trabalho, repletos de stress e preocupações, com manifesta falta de tempo, a que se junta nalguns casos uma enorme falta de vocação, só podem é ceder … mais tarde ou mais cedo!
A isso se junta a natural ambição, que os pais tem de proporcionarem aos seus filhos, o melhor possível ... só que na maior parte dos casos, isto traduz-se em inundarem-nos verdadeiramente de bens materiais, descurando muitas vezes a parte emocional, a ética e sua obrigação de os preparem realmente para a vida, dando-lhes a educação necessária, com tudo o que isso implica de sacrifícios, tarefas horrorosas e regras chatas, mas indispensáveis a uma saudável convivência social.
Depois, como geralmente ambos os pais trabalham fora de casa e os avós não moram lá, a criança desde cedo tem que ir para infantários, creches a ATL’s, onda passa largas horas dos seus dias. Aqui, apesar das vantagens importantes, que decorrem da convivência social com outras crianças da sua idade, tem por outro lado a desvantagem do seu desenvolvimento, se estar a processar fora do controle e da orientação dos pais.
Ao fim do dia, quando criança e pais chegam finalmente a casa, a mãe irá provavelmente para a cozinha, carpir as suas mágoas entre tachos e panelas e o pai, ou ainda não chegou a casa do trabalho (malditos horários flexíveis !), ou se já chegou vem pouco mais que arrasado, desejoso de “vegetar” um pouco à frente da televisão, ou navegar na Internet. A criança necessita e exige atenção, mas é pouco provável que a tenha, ou pelo menos com a duração e a intensidade que necessita.
Há muitos anos atrás, as crianças saiam para a rua, vigiadas por algum irmão mais velho, jogavam à bola em encontros excitantes, com os vizinhos do bairro, andavam de bicicleta em liberdade, jogavam às escondidas, ao berlinde e ao peão e quando voltavam para casa, vinham cheias, cansadas e satisfeitas … eram felizes de outra maneira ! Agora, as cidades pertencem aos carros, que inundam os passeios e as estradas, a insegurança é real e os noticiários estão cheios de histórias de violência, raptos e violações … o antigo campo da bola, foi substituído por mais um arranha céus e a antiga mata, deu lugar a mais um Centro Comercial . É perigoso irem para a rua e os pais já não os deixam sair de casa !
Então como ocupar os tempos livres e a enorme energia das crianças ?
É aqui que a tecnologia dá a resposta : A televisão que os hipnotiza e embrutece, o computador e principalmente os JOGOS !!! verdadeiros “baby-sitters” electrónicos, que tomam conta e entretêm os nossos filhos !
Com eles, as nossa crianças ficam distraídas, caladinhas que nem se dá por elas e já não chateiam !!!
Pouco a pouco, elas vão penetrando neste mundo virtual, em que tudo é possível e que estimula os seus sentidos, sem sequer se levantarem da cadeira.
Tornam-se membros efectivos da Geração Playstation !!!
A Geração Playstation está verdadeiramente noutra …. O seu mundo é virtual e fantástico ! Nele tudo é possível, as hipóteses de se conseguir o que se quer são infindáveis, as vidas são infinitas e não há verdadeiramente limites, para nada !!!
A Geração Playstation só tem direitos, não tem deveres …
A Geração Playstation não gosta de História, ou Geografia, que seca ! É bem melhor desancar uns inimigos no Tomb Raider !
A Geração Playstation odeia Matemática, que merda ! É bem melhor acelerar de prego a fundo nas pistas de Indianápolis, ou Mónaco, ao volante de um formula 1, do último modelo !
A Geração Playstation não cumprimenta ninguém, que seca! Lá me fizeram tirar os olhos do jogo e o Dark Vader, destruiu completamente a minha nave espacial.
A Geração Playstation não faz a cama, nem arruma o quarto, que jeito, somos criados ou quê ! Para isso está lá a escrava da mãe, ou a empregada do leste.
A Geração Playstation exige novos jogos todos os meses! Os velhos já não dão pica e se os pais não tem dinheiro, que se desenrasquem, isso é essencial á sua sobrevivência … senão armam tal desatino lá em casa, de consequências imprevisíveis.
A Geração Playstation não gosta de passear, nem de ir visitar a família, ou os amigos dos cotas. Uma seca ainda maior! Só se lhes comprarem um Game Boy, ou uma Playstation móvel, para levarem e mesmo assim, quando chegados ao destino, comportam-se como umas múmias trombudas, sempre com aspecto chateado, só ligando verdadeiramente aos seu aparelhos portáteis.
A Geração Playstation exige telemóvel de último modelo, para poder estar em permanente contacto com os seus amigos e parceiros de jogo e os pais que os carreguem com um crédito generoso, senão gasta-se num instante … Há é verdade, já me esquecia, com câmara fotográfica e de filmar de preferência, senão vão ficar tristes e sorumbáticos, sendo certamente os mais infelizes lá da turma .
A Geração Playstation não faz trabalhos de casa. Essa é uma violência para com as crianças, que devia ser proibida. È muito melhor praticar artes marciais, lá no Body Combact e desancar os oponentes, com requintes de violência.
A Geração Playstation não quer saber de política, ou dos problemas da sociedade e do mundo. Isso são problemas dos adultos, eles que os resolvam ! E não os chateiem com queixas ou lamúrias.
A Geração Playstation não se preocupa com o futuro. Para quê, se o presente já tem tudo o que eles querem ! Só sabem que querem ser muito ricos, ter um grande carro e uma alta casa, recheada com tudo de bom e do melhor. Como o vão conseguir, não interessa, nem fazem a mínima ideia !
A Geração Playstation foi criada por nós, é uma construção nossa !
É bom que possamos reflectir sobre o que estamos a fazer … e onde tudo isto nos leva ….De boas intenções, está o mundo cheio …. Os resultados estão à vista !!!

(dedicado ao Rafael, um míudo feliz, sem Playstation)

4 Comments:

Anonymous Célia Luz said...

É bem verdade o que dizes, eu e o meu irmão mais velho nascemos no inicio da decada de 70 e brincávamos na rua, iamos para a pista de motocross, jogavamos á bola e ao berlinde num campo de amendoeiras que existia em frente do nosso prédio, e, mesmo em casa entretinhamo-nos a brincar na varanda e tentavamos aprender a jogar xadrez ou jogávamos ao monopólio. No nosso tempo jogavamos á apanhada e ás escondidas com os nossos amigos e vizinhos. O meu irmão mais novo nasceu no fim da década de 80 e com 5 anos já jogava playstation e mexia no computador do meu pai. Hoje, com 16 anos, chega da escola e senta-se ao pc e só sai de lá para a cama. É triste ir visitá-los e receber um beijo mal dado do meu irmão que como tu dizes está a jogar e eu vou atrapalhar o jogo. Parece que vivem noutro Mundo... Temos que começar a viver de outra maneira. Em primeiro lugar, nunca oferecer playstations, em segundo lugar usarmos o computador longe deles e dizer-lhes q o PC só serve para trabalhar. Temos que passear mais com os nossos filhos, levá-los para a Serra e mostrar-lhes a natureza ou para Museus e Galerias para que tenham mais cultura ou até fazer desporto com eles para que se afastem dos cigarros, enfim... há tantas coisas que os páis podem fazer em conjunto com os filhos e que lhes poderá proporcionar um melhor e mais saudável crescimento.

7/1/06 14:21  
Anonymous Anónimo said...

Muito obrigado amigo João.
Vou tentar ver menos televisão e jogar menos jogos no computador. RAFAEL

8/1/06 18:41  
Blogger JC said...

Rafael
Um abraço pá.
Lá fora há muitos, muitos miúdos que gostavam de ser felizes como tu. Tiveste a sorte de ter uns pais que te souberam encaminhar e dar-te amor, carinho e atenção.
Não sintas inveja dos outros, que passavam a vida agarrados aos seus jogos, goza a vida, observa o mundo e recebe tudo o que de bom ele tem para te dar.
E podes ver televisão e sentar-te de vez em quando ao computador. O que é mau é ficar lá muitas horas de seguida. Brinca com os teus amigos, até cansar, passeia com os teus pais, anda de bicicleta e de patins, joga à bola, trepa às árvores, pergunta tudo aquilo que quiseres saber, sente curiosidade e desejo de conhecer, dá atenção na escola, há tantas coisas novas para aprender.
É fantástico ser criança !!! Não queiras crescer depressa demais.
Em breve, temos que ir plantar uma árvore os dois.
Gosto muito de ser teu amigo!

8/1/06 22:40  
Blogger kaliel said...

ps1 devia existi novos jogos já tenho todos ai galera eu quero junta uma equipe para agente revoluciona so os que tem aguma carta na manga.

21/12/09 02:18  

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