terça-feira, dezembro 13, 2005

O Poeta, a Esfinge e o Velho

O Poeta vendia sonetos por esse país fora. Convidavam-no para abrilhantar festas de aniversário, convenções profissionais, celebrações de datas históricas e jantares gastronómicos.
Não tinha mãos a medir e todos elogiavam os seus poemas, vibrantes de emoção e com indiscutível qualidade. Já escrevera até alguns livros, mas andava um pouco farto daquela vida. É verdade que lhe davam muitos elogios e palmadinhas nas costas, mas todos aqueles “amigos” nunca se lembravam dele quando havia algum trabalho mais importante.
Começou então a procurar nos anúncios de emprego dos jornais diários, até que um dia a sua atenção ficou presa num que dizia assim:

Procura-se Presidente da Republica. Se tem mais de 35 anos, figura apresentável, sabe cortar fitas e botar discurso, gosta de viajar e fala várias línguas, concorra, o país precisa de si !
Oferecemos salário chorudo, viatura de luxo com motorista, equipa de assessores á sua escolha, palácio de S. Bento para habitar, mais de vinte viagens ao estrangeiro, por ano, para si e seus convidados e a sua fotografia emoldurada em todas as repartições públicas do país.

É isto mesmo, pensou o poeta, está aqui a minha oportunidade.
E foi, vestiu o seu melhor fato, penteou cuidadosamente a sua imponente barba grisalha e apresentou-se na capital, no endereço indicado no anúncio.
Quando lá chegou, já outra candidato partilhava as cadeiras da sala de espera.
Era a Esfinge, um homem alto e magro, com cara de poucos amigos, lápis atrás da orelha e pose muito direita, com se tivesse engolido uma vassoura. Falava em tom glacial, sem revelar qualquer tipo de emoção e nunca olhava o interlocutor nos olhos, preferindo antes fixar um ponto imaginário à sua frente.
Não lhe disse sequer bom dia e ignorou-o olimpicamente, enquanto lia atentamente um livro de Economia, em Inglês.
Foi então que a porta se abriu, com grande estrondo e um terceiro candidato entrou, tropeçando no tapete da entrada e só não caindo porque foi imediatamente amparado por dois outros homens mais novos, que o ladeavam.
--- Deixem-me, deixem-me, rabujou o homem, ainda consigo andar sózinho.
Era o Velho, uma prestigiada figura da 1ª República, que as más línguas diziam ter 120 anos, mas que jurava ter apenas 80. Já ocupara todos os cargos deste país, no passado e gozava de uma fabulosa reforma e de muitas outras regalias.
Era uma espécie de rei, sem trono e isso aborrecia-o soberanamente. Fartara-se de jogar às cartas, nos bancos de jardim, ou de discutir política com os seus amigos centenários, apesar dos bolinhos gostosos, da sua Maria e do cházinho de tília, que lhe temperava o sono e afastava a insónia.
Estava então o poeta perdido nestas conjecturas, quando se abriu a porta do salão principal e o ainda Presidente Bocas, entrou solenemente.
--- Ora bom dia meus senhores, sois vós então os candidatos à presidência da Republica. Quero – vos informar, que esta audiência está a ser transmitida em directo para todo o país. O que têm a dizer, para justificar a vossa candidatura ?
O Poeta levantou-se, dirigiu-se para o centro da sala, levantou os braços e disse:
--- As armas e os barões assinalados, que da ocidental pátria lusitana, partiram para desbravar novos mundos … jazem incrédulos, perante a mesquinha condição, que nos persegue no presente !
Somos feitos da matéria celestial, do pó das estrelas e o nosso destino só poderá ser glorioso e nobre !
Eu sou a hipotenusa, que une os catetos da portugalidade. Eu serei o timoneiro desta nau e restabelecerei a confiança e o orgulho desta nação sublime .
E voltou a sentar-se visivelmente satisfeito com a sua prestação.
Levantou-se então a Esfinge e dirigiu-se para o centro da sala, retirando o lápis de trás da orelha.
--- Eu sou o único que sabe fazer contas ! Sou licenciado em Economia, doutorado em Finanças Públicas, mestrado em Orçamentos e Impostos e resolvo matrizes e determinantes, mais rápidamente que qualquer calculadora. Este país não precisa de poetas, nem de velhos rançosos. Precisa de alguém que meta as contas na ordem, ponha o país a facturar e os cofres a transbordar . Eu sou essa pessoa, concluiu solenemente, voltando a sentar-se no seu lugar.
Levantou-se então o velho e com esforço lá se dirigiu lentamente para o centro da sala.
--- Eu sou o Português mais conhecido em todo o sistema solar. Conheço os cinco cantos do mundo e trato por tu todos os presidentes e primeiro ministros da galáxia. Sobrevivi a todas as crises política, dos últimos cem anos, escapei a todas revoluções e golpes de estado, participei em todos os governos e tenho amigos e apoiantes em todos os parlamentos. Criei partidos e associações, inventei fundações e fui o maior angariador de fundos comunitários. Sou recordista de jantares, cocktails, reuniões e plenários. Ninguém em Portugal viajou tanto como eu, andei de elefante na Índia e de tartaruga nas Seichelles. Como vêem, sou sem dúvida o mais indicado para desempenhar este cargo, o único que irá prestigiar e valorizar Portugal, concluiu com um ataque de tosse e dirigiu-se a custo para a sua cadeira.
Fez-se um enorme silêncio na sala, só interrompido pelo Presidente Bocas, que disse:
--- Meus senhores, obrigado pelas vossas palavras, feliz o país que tão ilustres filhos têm ! Os dados estão lançados. A partir de agora e durante algumas semanas, vão percorrer o país, tentando convencer os vossos eleitores. Desejo a todos boa sorte e que ganhe o melhor …

( esta história ainda não terminou, há capítulos a serem escritos todos os dias …Em Janeiro logo se verá !)

1 Comments:

Blogger manuel castelo ramos said...

Promete, João, promete...

15/12/05 23:13  

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