quinta-feira, janeiro 26, 2006

A Guerra Civil das Escolas

Estou no meio de uma aula de Matemática e por entre o ruído ensurdecedor que me rodeia, penso sobre o que é que estarei a fazer aqui.
A ensinar Matemática, dirão, mas como ? …
À minha frente 28 miúdos de várias idades falam uns com os outros, elevando a voz como se de um mercado se tratasse. Pelo ar voam borrachas e um pouco mais abaixo circulam folhas com corações desenhados e “Loves” escritos em várias letras.
Respiro fundo e preparo-me para berrar mais uma vez por silêncio … desta vez em forma de suplica, pois todos os outros métodos caíram já por terra …
Qual quê, o barulho nem sequer baixa um bocadinho … à minha esquerda o Mário tenta fazer o exercício, quando um papel lhe aterra na testa e umas risadas sobrepõem-se ao ruído de fundo. Então não é que o malandro até estava a trabalhar …. Inadmissível, sem dúvida e logo o Marcos tratou de lhe recordar que ali a malta não gostava de marrões.
Um pouco mais atrás a Patrícia dava chapadas furiosa na cabeça do Diogo, que encostara a cadeira para trás, fazendo cair o dossier da aluna. Este berrava que nem um possesso à espera da reacção do professor.
Lá no fundo da sala a Adriana soltava risadas estridentes, mostrando um qualquer papel à Carla, enquanto do outro lado o Carlos berrava que lhe tinham roubado o afia.
--- O professor não manda em mim ! dissera a fedelha de 12 anos, quando na aula anterior me fizera saltar a tampa e a mandara para a Sala de Estudo, nem a minha mãe manda, quanto mais o professor, exclamara em tom triunfal.
Entretanto, á frente do lado esquerdo o António de braço esticado, queria ir à casa de banho, posição contestada imediatamente pelo Ricardo, que dizia que agora era a sua vez.
A Matemática andava perdida no meio de tudo aquilo e perante tantos “incêndios” em simultâneo, eu pensava qual deles acudir primeiro.
Lancei mais um dos meus berros de guerra, o enésimo, se não me falha a memória e o ruído decresceu momentaneamente.
Optei por lhes apelar ao sentimento e fiz mais um discurso emotivo, que resultou … durante 30 segundos.
Quando me preparava para voltar à Matemática, virei-me para o quadro para explicar a operação e imediatamente como que por magia a algazarra voltou, com a mesma intensidade de sempre …
Que fazer ? Mandar mais dois ou três para a rua, irá chocar certamente com a doutrina oficial do bom selvagem, a tal das pedagogias activas … malandro do professor, culpado e cruxificado, por tamanho descalabro.
Tento novamente explicar a propriedade da multiplicação, o barulho baixou um pouco, mas só meia dúzia dos alunos me estão a dar atenção … os outros entretidos com vários afazeres importantes como riscar as mesas ou escrever bilhetinhos de amor, estão-se completamente cagando para todo o meu esforço !
Olho desalentado para a turma e penso novamente na minha vida, sentindo o cansaço avolumar-se a cada minuto que passa … Lá fora, a muitos milhares de kilometros de distância há milhares de miúdos esfaimados e com sede de conhecimento, que gostariam certamente de ouvir, tudo o que eu tenho para ensinar…. e isso podia ser um raio de sol, que os ajudasse a mudar a sua vida para saírem desses círculos infernais de miséria e sofrimento.
Volto a cair em mim, quando à minha frente a Mafalda, num gesto de simpatia exclama: Não se canse professor, não vale a pena !
Como ela tem razão ! Estes miúdos não querem aprender Matemática, que seca !
O que eles querem é mais Playstations, novos episódios dos Morangos com Açúcar e mais telemóveis de última geração, daqueles que fazem filmes e tudo. Tudo o resto é o mundo estúpido dos adultos, secante e enfadonho.
Mas não posso parar, a meio da sala nova disputa se inicia, o Pedro e a Sara empurram-se com violência, por causa de um afia e lá tenho que ir separar os moços, antes que se matem.
O caso estava feio, felizmente que tocou a campainha e como que impulsionados por uma mola todos se levantaram, gritando contentes com o fim daquele pesadelo e correndo para o recreio, atropelando-se mutuamente nas escadas.
Por fim a sala esvaziou-se de alunos. Eu sentei-me à secretária, gozando aquele momento de tréguas e tentando recuperar forças …
Bem precisava ! Seguiam-se mais 6 horas como aquela … e era preciso sobreviver !....

1 Comments:

Anonymous Célia Luz said...

Realmente é uma vida lixada! Não consigo deixar de sentir uma certa simpatia e pena pelos professores, especialmente porque eu também fui uma aluna dificil de aturar. Lembro-me das vezes sem fim em que os professores me disseram que para mim bastaria estar atenta para ser a melhor da turma mas parecia-me a mim que eles andavam a sonhar alto ou que me queriam apenas iludir para me manterem menos desatenta e não perturbar. Hoje sei que o que eles diziam era verdade e tenho pena de não ter tido melhores notas. Enfim, tudo isto para te dizer João que compreendo muito bem a tua situação, deve ser muito frustrante querer ensinar, dar algo de nós, e não sentir interesse algum nos alunos em aprender uma matéria que tanta falta faz. Também no outro dia vi um documentário sobre Africa onde os alunos tentavam aprender tudo, mesmo sem sapatos para ir para a escola, nem outras necessárias condições... realmente há uma grande diferença entre ter tudo e querer mais e o não ter quase nada e contentar-se com o pouco que se tem...

27/1/06 16:47  

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