quinta-feira, dezembro 22, 2005

A Cura (5ªparte)

Portugal desta vez não estava com sorte. Há dois dias que estava à beira daquela estrada de polegar esticado e nada. Ninguém parava e havia até quem o tentasse assustar, guinando o carro na sua direcção, como se fosse para atropelá-lo. Desesperado e esfaimado recolheu as últimas moedinhas, que tinha nos bolsos e resolveu ir comer uma bifana, ao restaurante de estrada, alguns metros mais á frente.
Entrou na sala cheia, onde o cheiro a feijoada se misturava com o nevoeiro do tabaco e sentou-se numa mesa junto á janela. Era um restaurante de camionistas, que se juntavam em grupos barulhentos e esfomeados, enquanto os camiões TIR alinhados lá fora, como que montavam guarda. Lá dentro o ambiente era ruidoso, enquanto os jarros de vinho e os tachos de feijoada, não paravam de passar, transportados por uma empregada loira, com uma largo decote e sorriso de coelho.
Estava para ali perdido nos seus pensamentos, mastigando lentamente a sua bifana, quando vê através do vidro um táxi a estacionar. O seu condutor saiu com ar cansado e receoso e olhou para todos os lados amedrontado, antes de fechar o carro e entrar no restaurante. Como estavam todas as mesas cheias, dirigiu-se à sua e disse-lhe: --- Posso-me sentar aqui, está tudo cheio.
--- Claro, respondeu Portugal, faça favor.
O homem de meia idade e impecávelmente vestido, sentou-se e logo começaram ali uma amena cavaqueira. Disse-lhe que vinha da Suiça e que guiara todo o dia e noite, só parando para comer e fazer algumas necessidades. Estava a cair de sono, mas tinha pressa em chegar a Oeiras, onde tinha que entregar uma encomendas, para o tio.
--- Mas nesse estado, exclamou Portugal, ainda vai ter para aí um acidente. Você tem que descansar!
--- Pois é, exclamou o homem, estou mesmo a cair de sono, isto já não vai nem com uma remessa de cafés. Mas não posso parar, se chego atrasado o meu tio mata-me.
--- Já sei o que podemos fazer, respondeu Portugal, há uma boa forma de resolvermos o problema e ambos ficamos a ganhar . Eu também preciso de ir para essa zona e não tenho transporte, como tenho carta de condução, eu posso guiar o seu táxi e você pode dormir uma bela soneca no banco de trás.
--- Era bom, era, mas para guiar o táxi é preciso carta profissional , exclamou o homem com ar desanimado.
--- Eu tenho carta profissional, respondeu Portugal tirando-a da carteira e mostrando-a ao outro … e também já guiei táxis nas ruas de Lisboa.
--- Que maravilha, disse o outro, agora já com um ar feliz, eu até lhe pago a despesa homem.
E assim foi, chamou a empregada, pagou a conta dos dois e lá saíram em direcção ao carro, estacionado logo em frente ao restaurante.
Portugal sentou-se ao volante, enquanto o outro se instalava no banco de trás.
Arrancaram e o homem disse: --- Deve estar a precisar de gasóleo, pare na próxima bomba e meta 50 €, está aqui o dinheiro, exclamou entregando-lhe uma nota. Outra coisa, se a polícia o mandar parar, diga que é meu passageiro e que a bagagem que está na mala é sua.
Dito isto, deitou-se, tapando-se com o casaco e passado poucos segundos já estava a ressonar.
Portugal, ficou intrigado, com aquela última frase, mas não se atreveu a acordar o homem, que dormia tão profundamente lá atrás. Tentou concentrar-se na estrada, mas aquela frase não lhe saía da cabeça.
Passados alguns kilometros, chegaram á bomba de gasolina e Portugal saiu para encher o depósito.
O homem nem acordou e continuava a ressonar no banco de trás.
Portugal sempre fora curioso e depois de pagar o gasóleo não resistiu e foi espreitar na bagageira do carro. Lá dentro três malas diplomáticas pretas, todas do mesmo tamanho, encontravam-se alinhadas a um canto.
Que estranho, pensou, nem roupa , nem nada. Não resistiu e tentou abrir a primeira mala, mas estava fechada á chave. Já estava para desistir quando viu que uma das malas tinha um papel meio atravessado, num dos fechos. Tentou abrir essa e conseguiu. Foi tanta a sua admiração, que quase se borrava pelas pernas abaixo … A mala estava cheia de notas . Fechou-a, já bastante assustado e olhou para todos os lados, mas ninguém dera conta de nada.
Voltou para dentro do carro e arrancou .
E agora , pensou, estou metido num sarilho. Continuou a guiar e depois de muito ponderar decidiu, que não ia dizer nada ao homem, fingindo que nada teria acontecido.
Passadas umas horas, chegaram a Oeiras e então acordou o homem, que lhe pediu para parar á porta de uma pensão onde iria ficar alojado.
--- Soube-me que nem ginjas, exclamou já com um ar mais desanuviado, nem sei como lhe poderia agradecer, afirmou todo sorridente.
--- Não queria estar a abusar, respondeu Portugal, mas se me emprestasse o táxi por umas horinhas, precisava de ir até Sintra.
--- Concerteza, respondeu o outro, só vou precisar dele amanhã, agora vou para a segunda parte desta minha soneca, há duas noites que não dormia. Traga-me a máquina amanhã ás 11 . Não falhe, estou a confiar em si.
--- Esteja descansado, afirmou Portugal, mal acreditando no que ouvia, cá estarei e muito, muito obrigado. O homem saiu, levando consigo as malas da bagageira e Portugal ali ficou a pensar como se tinha safado daquela.

(continua)

2 Comments:

Anonymous Célia Luz said...

Isso não vale! Se já estava curiosa pela história agora então é que não vou sossegar pelo resto... está cada vez melhor esta história! Parabéns!

22/12/05 18:54  
Anonymous Anónimo said...

Não perca as próximas aventuras de Portugal nesta emocionante Blogenovela

22/12/05 19:34  

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