sexta-feira, setembro 16, 2005

Ser professor

Sou professor há 22 anos e sinto o fardo cada vez mais pesado, a cada ano que passa.
Esta é em Portugal, cada vez mais uma profissão maldita, desvalorizada e humilhada e talvez para aí no penúltimo lugar na escala social, apenas ligeiramente acima de varredor do lixo ou servente de pedreiro.
E isto porquê ?
Razões há várias, mas talvez uma das mais importantes seja o facto de este ser um país que desvaloriza a cultura e penaliza o conhecimento. O “Saber” é uma seca e não interessa para nada … para o português o importante é consumir, ter dinheiro, vestir-se com as melhores roupas, andar nos melhores carros e ter uma alta casa, com piscina …
Como obter tudo isso, na realidade não interessa … se for apanhado é um malandro, se não for apanhado é um herói …
Somos um país de analfabetos e principalmente de semi-analfabetos, pelo que o índice cultural é baixo.
Para além disso, muitos portugueses, tem um velho contencioso com a Escola ! Muitos dos mais velhos não puderam ir mais longe … os tempos eram difíceis e começava-se a trabalhar muito cedo. Mas muitos outros também não foram mais longe, porque não quiseram … porque não se esforçaram o suficiente. Para estes, os professores são uns bodes expiatórios perfeitos, os únicos responsáveis pela vida que hoje têm.
Por estas e outras razões, a profissão docente em Portugal, longe de ser algo que nos orgulhe, é vista quase como um motivo de vergonha.
Esta tem sido também a estratégia do Estado, que aposta em dividir para reinar e em desconsiderar e caluniar, para assim encontrar justificação e apoio social para nos castigar, fazer-nos trabalhar ainda mais, por cada vez menos dinheiro.
Atacam-nos por passarmos pouco tempo nas escolas … mas o que ninguém diz é que estas não tem condições para que possamos fazer todo o nosso trabalho lá … sem trazermos para casa os testes para corrigir e as aulas para preparar.
O professor não é uma máquina de Coca-Cola, em que se mete a moeda e debita o conhecimento.
Mas a sociedade só contabiliza como trabalho as horas que estamos na sala de aula, à frente dos nossos alunos. Tudo o resto não conta !
Por isso a maioria concorda com o nosso desgraçado presidente, que diz que na Finlândia os professores passam 50 horas por semana, a trabalhar na escola e acusa-nos de falta de empenho e dedicação.
Por isso toda a sacanagem que a ministra fascista da Educação nos fizer, terá a bênção social dos portugueses, desejosos de vingança …
Há apenas um pequeno problema : os professores estão a ficar doentes, os esgotamentos sucedem-se, as consultas de psiquiatria também. Noutros países, começa a haver falta de professores, porque a profissão deixou de ser atraente. Por cá os 40 mil professores desempregados, dão ainda um certo descanso à sociedade … podemos continuar a dizer mal deles, porque se estes desistirem ou ficarem xé-xés, há ainda muitos outros para assegurarem o lugar.
Sim, porque apesar de os professores serem umas bestas … nós ainda precisamos deles …. Senão quem é que cuidava das nossas criancinhas !!!

3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

No ensino superior, com os acordos de Bolonha e a vaga do e-learning, os professores vão passar a ser dispensáveis: os estudantes não terão mais de ir ouvir o professor, que isso de aulas de conversa teórica é já coisa antiquada. Agora abrem-se as páginas das intranets das universidades, pesquisa-se o que o docente lá deixou, interage-se com o dito docente por e-mail e pronto! Eis o milagre da autonomia na aprendizagem. Veremos quantos docentes serão dispensados nos próximos anos... (ou serão, talvez, reconvertidos em técnicos de produção de conteúdos multimédia, construção de webpages e assim...)
É assim o capitalismo triunfante de caganeira roxa!
C Marley

16/9/05 22:23  
Blogger António Baeta said...

Sabes o que acho, João?! É que os professores também são portugueses.

17/9/05 13:15  
Blogger Adriano Costa said...

O mais triste é termos um "patrão" para quem os fins justificam SEMPRE os meios...

17/9/05 15:05  

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