sábado, abril 21, 2007

Salazar

Já há algum tempo que andava aqui para falar da vitória de Salazar, num tal de concurso televisivo de má memória.
Primeiro fiquei triste e desconsolado, mas à medida que fui dissecando a questão fui compreendendo melhor o fenómeno (sem todavia o aceitar, note-se …).
Primeiro que tudo gostaria também de dizer que teria ficado igualmente triste se o vencedor fosse Cunhal (o 2º classificado). Acho Salazar e Cunhal muito parecidos, com mais semelhanças do que diferenças. Enquanto um foi um estalinista de direita, o outro foi um estalinista de esquerda. Ambos foram ditadores, repressores e ambos mostraram pouco respeito pelas liberdades e pela diferença. Um governou, o outro não, mas se tivesse lá chegado as diferenças não seriam assim tantas.
Mas é sobre o Salazarismo que me propus aqui a falar e aí vai o que eu penso.
São várias as razões para a vitória de Salazar. Passo a expô-las :

--- O saudosismo ; muitos dos seus votantes terão sido pessoas de idades mais avançadas, para ao quais Salazar representa a sua juventude … que não volta mais.
A nossa memória é muito selectiva e esses já esqueceram a repressão, a censura, a Pide, as perseguições políticas, a guerra colonial, etc . Pelo contrário lembram-se preferencialmente de que eram jovens, tinham saúde, vitalidade, energia, amavam mulheres bonitas e eram felizes. Agora, em contrapartida estão velhos e doentes, sem energia, reformados com muito pouco dinheiro, abandonados em asilos, ou condenados a jogar ás cartas, nos bancos de jardim.
Para eles Salazar, mais que uma pessoa é um símbolo. O símbolo da juventude perdida.

--- O fascínio pelas personalidades fortes e ditatoriais: sendo o povo Português caracterizado pelos seus brandos costumes, por uma cultura de pouca responsabilização e baixa cidadania, por uma certa falta de rigor e de exigência e pela prevalência da cunha, do esquema e do arranjinho, sempre existiu e existirá um certo fascínio e admiração pelas personalidades fortes, que consigam “pôr a casa em ordem”. Ou seja primeiro a bagunça, depois a limpeza radical.
A História de Portugal é um exemplo disto, já que tem sido uma sucessão de períodos de balbúrdia e confusão, a que se sucede uma personalidade forte e repressora, tipo Marquês de Pombal, para “arrumar a casa” e voltar a pôr as coisas a funcionar (ou que pelo menos dê essa ideia). Portugal oscila ciclicamente entre o “8 e o 80”, sem estacionar um pouco no meio, sem um equilíbrio e uma estabilidade.

--- A inexistência de um “julgamento” do Salazarismo; tivemos a revolução, o 25 de Abril e saltámos de euforia com os “ventos da liberdade”. Depois cada um puxou para o seu lado e voltou a confusão. A seguir veio a Democracia, que serviu principalmente aos “Chico espertos”, aos oportunistas e aos esquemas partidários. A seguir veio a Europa, que estabilizou um pouco e nivelou a vida do país.
Mas nunca se fez o julgamento do Salazarismo. Porque é que era mau o regime de Salazar ? Quais os crime que foram cometidos e quem os cometeu ? A quem serviu a Guerra Colonial e o que é que o Exercito Português fez em África ? Porquê a doutrina do “orgulhosamente sós” ?
Como estas questões não foram respondidas, como nenhum culpado foi condenado, apenas alguns tiveram um exílio dourado no Brasil, o tempo encarregou-se de passar uma esponja sobre o que foi o Fascismo Português, que agora pode ser assim milagrosamente branqueado.

--- Um claro voto no Contra, na oposição de tudo, até da própria oposição; para alguns mais novos, que nem sequer ouviram falar de Salazar na escola ( apenas um curto parágrafo, da penúltima página do manual de História, que a Sôtora não teve tempo de dar …), Salazar representará porventura uma forma de ruptura com todo este sistema, uma negação da Democracia “escarafunchada” e por vezes mal cheirosa em que vivemos.

É esta a minha análise. Se quiserem digam o que pensam sobre ela.
Por aqui a vida continua e o país prossegue o seu “fado”.
Salazar não recuscitará certamente, mas isso não quer dizer que não apareça para aí um herdeiro, pronto a recomeçar um novo ciclo ….

3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Não me quero alongar muito - até porque, genericamente, também acho que o tal concurso foi um mau espectáculo e um mau serviço que a rtp prestou ao país. Mas há uma coisa que me fez alguma confusão: não sei como podes achar Cunhal e Salazar muito parecidos?!!! Uma coisa é a hipótese de que as razões que levaram à votação em ambos no tal concurso poderem, talvez, ser sociologicamente similares; outra coisa é acharmos que eles eram, de facto parecidos. Aqui discordo radicalmente. Devo dizer que não sou nem nunca fui propriamente um fã do tio Álvaro e só gosto do José Estaline com batatas fritas e grelos, mas caramba, dizer que o gajo é "um ditador, um repressor" e que sempre "mostrou pouco respeito pela liberdade e pelas diferenças"... - isto acho feio de se ouvir. O gajo lutou como um leão contra a ditadura. O que faria no poder se tivesse governado? A história não vive de "ses..." E lembro que o Cunhal integrou vários governos num período em que - por mais acusações que se façam ao PREC - todos os partidos estavam representados nos governos, por via de uma distribuição proporcional de Ministros... Não está agora em causa julgar se isso foi bom ou mau, mas acho profundamente injusto comparar o Cunhal ao Salazar. Para mim, o primeiro foi, acima de tudo, um herói da resistência anti-fascista, e por isso o admiro; o segundo foi apenas um pulha dum intelectual católico, mesquinho e arrogante, cujo regime nojento poderá talvez justificar-se historicamente até à 2º Guerra Mundial. Nada mais.
Viva a Liberdade!
Fascismo nunca mais!

C.Marley

23/4/07 14:52  
Blogger JC said...

Olá Chico
Concordo contigo quando dizes que a História não vive de ses. Na verdade Cunhal nunca teve o poder de que gozou Salazar e daí que o meu juízo possa ter sido demasiado severo.
No entanto nunca confiei naquele homem. A sua pose rígida, severa algo autoritária, sempre me inspirou desconfiança e a mão de ferro com que governou o partido ao longo de tantos anos, não prenunciava nada de bom. Gosto por exemplo muito mais das atitudes e do estilo do actual "timoneiro" o Jerónimo.
Mas isto é uma opinião claro.
Por fim uma outra coisa: o propósito do meu artigo era o de falar de Salazar e do renascimento do culto Salazarista e sobre isto fiz algumas conjecturas, que pelos vistos não te suscitaram nenhum comentário.
Um abraço.

25/4/07 21:19  
Anonymous Anónimo said...

Pois!... Se a gente fosse a comentar tudo, era uma conversa permanente - o que seria certamente muito agradável, mas o tempo não chega...
Abraço
C.Marley

26/4/07 09:27  

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