segunda-feira, março 13, 2006

A morte

Quando a morte nos bate à porta, ficamos tão desarmados e impotentes … como uma criança tremendo no escuro, povoado de ruídos inquietantes.
Sentimos um vazio intolerável … como que um buraco negro emocional, que suga o presente e um aperto no peito, que nos dificulta a respiração, como que um alicate invisível, que torce lentamente os segundos … e atrás deles os minutos e as horas que se seguem.
Dói … dói fundo e de forma permanente.
As palavras faltam … fúteis, inúteis e incompletas … e a razão esconde-se no armário dos fundos.
O ritual é doloroso, maquiavélico e masoquista … mas algo tem que ser feito para concluir aquilo, que num dia longínquo tinha começado .
Só nos resta desejar que termine depressa e que possamos fugir dali para fora … para que finalmente na solidão de nós próprios, possamos fazer o funeral interior e começar a preparar o futuro, da sua ausência …
A morte é a única certeza que temos na vida, mas nada nela nos prepara para este desfecho … e quase sempre evitamos pensar nisso, preferindo filosofias mais agradáveis …
Os que têm fé e professam uma religião, refugiam-se nela, nestes momentos marcantes, mas até para esses tudo parece muito pouco convincente e certamente questionável.
Por vezes o passado e os seus momentos, tomam de assalto a fortaleza do presente … e é aí que o que ficou por dizer e por fazer, se torna mais pesado, quase insuportável …
Por vezes as emoções não se soltam logo, antes se acumulam no nosso interior como uma bolha, que incha, incha … até que transborda e se solta para fora, finalmente, com ou sem lágrimas.
Dói … dói muitas vezes … e a dor serve para nos recordar que ainda estamos vivos … e que por mais que nos custe, teremos que nos adaptar … e seguir viagem.
E o outro, o ser que foi, como sentirá tudo isto ?...
Será que paira invisível, por cima das nossas cabeças, observando aquela série de pessoas sorumbáticas, que rodeiam o seu corpo pálido e frio ?
Será que já por ali não anda … e que naquele momento renasce, sobre uma outra forma na pele de qualquer outro ser vivo ?
Ou será qualquer outra coisa … ou coisa nenhuma.
Todos os que morreram são únicos … uns mais preciosos, outros menos.
Por muito que nos custe é preciso substituí-los, no estádio das nossas emoções …
Não podemos ficar sós … e lá fora o mundo transborda de seres vivos, igualmente maravilhosos.
Depois do luto e do tempo que temos que dar a nós próprios … é preciso partir em busca de outro ser, que possa tomar o seu lugar, nos nosso quotidiano.
A vida continua, para os que por cá ficaram … e muito irá ainda acontecer, até que a nossa hora chegue, um dia !...

( uma última palavra para ti minha amiga …. Obrigado !!! Obrigado por me teres concedido a graça da tua amizade … obrigado pelos risos e as gargalhadas, que tivemos juntos … obrigado pelos cozinhados, que saboreámos e o vinho que bebemos … obrigado pelos amigos que partilhámos … obrigado pelas festas, pelas conversas e pelos momentos especiais … obrigado pela hospedagem e pela hospitalidade maravilhosa da tua casa … obrigado pela tua força e pelo teu sorriso … Obrigado !!!
Que pena teres partido tão cedo !...
Até sempre !!!)

2 Comments:

Anonymous Celia Luz said...

Não sei quem partiu mas fiquei emocionada com as tuas palavras de agradecimento. Quando as pessoas morrem sentimos sempre que algo ficou por dizer, mas eu acho que as pessoas que partiram sentiram o nosso agradecimento no calor dos sorrisos anteriormente partilhados, nos telefonemas inesperados ou no apoio que certamente lhes demos quando se sentiram tristes. Há muitas coisas que nem é preciso dizer entre amigos porque se sentem. A dor que sentimos ao perder alguém, ninguem a compreende por mais que tente, cada um sente de uma forma diferente e á sua maneira. A unica coisa que ajuda é o tempo, quanto mais tempo passar mais aprendemos a viver sem essa pessoa mesmo sem nunca a esquecermos! Neste momento são estas as minhas palavras de conforto para ti amigo joão, obrigada por existires!

15/3/06 12:00  
Blogger paty said...

A morte é algo pelo qual não deveriamos passar...mas tu de facto descreveste-a em sua plenitude e sentida...apesar se ser algo que não conseguimos evitar é importante saber exprimir o que nos vai na alma em vez remoer por dentro...

17/3/06 20:40  

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